JK não condenou o golpe. Ao lado de outros líderes do PSD, o senador se reuniu com o general Humberto Castelo Branco, candidato das Forças Armadas para concluir o mandato de Goulart, a fim de entender os planos dos golpistas. Precisando dos votos do PSD, o general prometeu que, se fosse mesmo escolhido pelo Congresso, manteria a eleição presidencial de 1965 e devolveria o governo aos civis. O candidato a vice foi José Maria Alkmin, que pertencia ao PSD mineiro e era casado com uma prima de JK.
Tranquilizado, acreditando que o golpe não atrapalharia seu projeto político e que a normalidade democrática seria restaurada, o senador JK participou da eleição indireta, em 11 de abril de 1964, e votou em Castelo Branco, que se tornou o primeiro presidente da ditadura.
Logo, porém, surgiram rumores de que JK se tornaria mais um dos tantos políticos cassados pela ditadura. Em 3 de junho, ele subiu à tribuna do Senado para fazer seu terceiro e último pronunciamento na condição de senador. Ele discursou:
— Na previsão de que se confirme a cassação dos meus direitos políticos, julgo do meu dever dirigir algumas palavras à nação brasileira. Não sei exatamente do que me acusam. Só recolhi boatos e murmúrios de velhas histórias já desfeitas e desmoralizadas por contestações irretorquíveis. Pela própria mecânica do Ato Institucional, aos fulminados não é dado acesso às peças acusatórias. Já a nação vive sob os efeitos do terror.
Chamando o golpe e a ditadura de “revolução”, JK continuou:
— É a minha causa da defesa das instituições livres que me transforma em vítima da sanha liberticida que tenta manchar a revolução, feita para salvar-nos da tirania comunista. O golpe que na minha pessoa de ex-chefe de Estado querem desfechar atingirá a vida democrática, a vontade livre do povo. Não me estão ferindo pessoalmente, mas a todos que se julgam no direito de escolher a quem desejam para presidir o seu destino. Será um ato de traição às promessas da revolução, que oferecia uma oportunidade a todos os brasileiros de colaborarem na reconstrução do país.
Os rumores se confirmaram. Cinco dias depois daquele discurso, o presidente Castelo Branco assinou um decreto que cassou o mandato de JK e suspendeu seus direitos políticos por dez anos. Ele, que passou apenas três anos no Senado, partiu para o exílio.
O historiador Ronaldo Costa Couto, autor do livro biográfico JK (Edições Câmara), afirma que o presidente Castelo Branco não queria cassar o senador, mas acabou cedendo à pressão de seu ministro da Guerra, general Artur da Costa e Silva. Ele explica:
— Castelo Branco, na realidade, era grato a JK. Foi o antigo presidente que o promoveu a general. Essa promoção foi fundamental porque permitiu que Castelo Branco continuasse na ativa, evitando a transferência compulsória para a reserva. Em razão dessa gratidão histórica, existem fortes indícios de que não desejava cassar JK. No entanto, a pressão política nos bastidores liderada por Costa e Silva, que tinha o projeto pessoal de se tornar presidente da República, tornou a cassação inevitável.
De acordo com Costa Couto, muitos oficiais militares, como o ministro da Guerra, davam como certa uma nova vitória presidencial de JK, que aparecia nas pesquisas de opinião com mais de 60% das intenções de voto. O historiador continua:
— JK foi retirado do jogo político porque, para os militares que tomaram o poder, sua volta à Presidência equivaleria a uma revogação do próprio golpe. Eles o enxergavam como um getulista, à semelhança de João Goulart, e essa era uma corrente política que despertava forte rejeição em boa parte das Forças Armadas. Ao empunhar a bandeira da reforma agrária, a imagem de JK se aproximou ainda mais da de João Goulart, que a incluíra em suas prometidas Reformas de Base.
A oposição das Forças Armadas era tão forte que JK sofreu três tentativas de golpe militar: em 1955, quando tentaram impedir sua posse; em 1956, na Revolta de Jacareacanga; e em 1959, na Revolta de Aragarças.
O ex-presidente e ex-senador voltaria do exílio em 1967. No entanto, com o prolongamento arbitrário do regime ditatorial, nunca mais recuperaria o protagonismo nem ocuparia cargo político. O presidente Castelo Branco não cumpriu a promessa de permitir as eleições de 1965. O pleito, novamente indireto, ocorreu apenas em 1966 e o vitorioso foi Costa e Silva.





